Dança

ENTRE PASSOS no caminho da DANÇA : um Pouco de HISTÓRIA

A dança é não apenas uma arte que permite a alma humana expressar-se em movimento, mas também a base de toda concepção de uma vida mais flexível, mais harmoniosa e mais natural. Não é, como se tende a acreditar, um conjunto de passos mais ou menos arbitrários que são resultados de combinações mecânicas 700x0_g_12594e que, embora possam ser úteis, como exercícios técnicos não poderiam ter a pretensão de constituírem uma arte: são meio, não fim. (DUNCAN, Isadora,1928, pg. 57)
A dança como outras linguagens humanas, transforma-se durante os séculos, variando sua forma de expressão conforme as tendências culturais e as mudanças sociais e políticas da época. No período do século XVII, Reinado de Luis XV, a dança se organiza como código sob a forma de ballet. No Brasil, essa tradição chega da Europa com as companhias líricas que por aqui se apresentam nos tempos coloniais.
Quatro séculos de ballet clássico e vinte séculos de desprezo do corpo por um cristianismo pervertido pelo dualismo platônico. No início do século XX, a dança havia se transformado em uma língua morta, numa arte decorativa e desumanizada, destituída de seu aspecto cultural, ritualístico e de comunhão com a natureza. (GARUDY, Roger, 1980, pg. 13)
O ballet clássico nascido na Itália, levado para França e emigrado novamente para a Rússia, com Petipa, primeiro bailarino da Opera de Paris, exerceu durante mais de meio século, uma verdadeira ditadura coreográfica, uma espécie de colonização da linguagem da dança, que naquela época servia como um ornamento usado para divertir e entreter uma determinada classe social, um regime aristocrático.
O século XIX, foi o século da revolução industrial, e a idade de ouro do Balé como arte de evasão da realidade. Nesse momento a dança transforma-se, em uma arte sem raízes nacionais, longe do povo, longe da ancestralidade, longe da natureza. Nesse momento a dança perde sua força enquanto expressão cultural, social e política, tornando se uma alegoria de luxo para os aristocratas e para nobreza.
A dança só voltou a florescer no Renascimento quando surgiu uma nova atitude em relação ao dualismo cristão, e os valores do corpo e da vida foram novamente exaltados. (GARAUDY, Roger 1980, pg. 29)
A dança é uma linguagem que facilita o caminho de desenvolvimento e ampliação da consciência humana, a integração corpo mente. A compreensão da dança enquanto consciência do corpo e processo de autoconhecimento, surge a partir de meados do século XX, após séculos de negação do corpo e colonização dessa linguagem.
A bailarina Isadora Duncan (1877- 1927), inaugura uma nova consciência na linguagem da dança, libertando e revolucionando esse universo essa linguagem, desconstruindo padrões estéticos baseados no ballet clássico e na repressão e submissão do corpo.
Com seus pés descalço suas roupas soltas e esvoaçantes, inaugura o que ela vem chamar de “libertação através da dança”, Isadora faz uma imersão e inspira-se nos movimentos dos elementos da natureza, para criar seu repertório de movimentos.

Numa época em que o ballet clássico era o estilo de dança mais difundido, ela incita a reflexão e se aprofunda nos estudos sobre o verdadeiro sentido da dança, buscando observar e dançar as tensões de sua época. Através de seu pensamento e de sua dança, ela nos mostra sua indignação com a sociedade industrial capitalista que explora os recursos naturais e transforma o homem em máquina.
Isadora nasceu em San Francisco nos EUA mais morou maior parte de sua vida na União Soviética. Suas coreografias refletem questões ligadas as emergências de seu tempo, como os traumas gerados pela guerra, a aproximação da natureza e a questão da mulher, todas ainda muito relevantes nos tempo de atuais. Isadora transforma a dança numa possibilidade de reflexo artístico de seu tempo.
A dança moderna surge como um movimento de ruptura com o código estabelecido pelos padrões clássicos e mais profundamente como um ato de contestação social e política. Ela se esboça no início do século XX com a bailarina Isadora Duncan, Ruth Saint Denis e Ted Shawn, afirma-se entre 1925 a 1960, a partir da obra de Martha Graham, Mary Wigman e Doris Humphrey. Se desenvolve a partir de 1960 com a nova dança, sob forma de questionamento e mesmo de contestação. Uma das artistas, que tiveram grande influência nesse movimento foi a bailarina Isadora Duncan.
Isadora, trouxe não uma técnica nova, mas uma nova concepção da dança e da vida. Realizou uma unidade profunda entre a dança e a sua vida, para realizar esta unidade, rompeu com as convenções e códigos que há séculos sufocavam aquela arte. (GARAUDY, Roger, 1980, pg. 57)
Para ela a dança é um modo de existir, Isadora vivencia intensamente a continuidade entre seu corpo e a natureza. A “volta a natureza” é um ponto de rompimento com a coreografia tradicional, barreira entre o mundo e o criador, representa o momento de contato com a vida e com a sociedade que a circunda. A dança se confunde com a vida, e ela dança os conflitos e as transformações de seu tempo. Isadora propõe a dança como arte de libertação.
Não se trata de uma libertação pessoal, mais a libertação de todo um sistema, a luta contra todas as instituições e os costumes opressivos. (GARAUDY, Roger, 1980, pg. 58).
A dança moderna foi um movimento de transformação e quebra de padrões clássicos, nesse momento a linguagem da dança passa por reformulações a partir do pensamento e das contribuições de diversos bailarinos e coreógrafos, artistas engajados com seu tempo. Marta Grahan é uma dessas pessoas, para ela, o ponto de partida dessa nova técnica é o ato fundamental da vida: o ato de respirar. Para ela a dança não é um espelho da vida, mais sim a participação na vida, uma libertação da vida pelo movimento. (GARAUDY, Roger1980, pg.)
Nesse momento a referência do corpo, do movimento e da linguagem corporal passa por reformulações, uma ressignificação das experiências, partindo da observação e da percepção do próprio corpo, da contextualização social, e do descondicionamento dos pensamentos e ações, em busca de ser e estar no mundo de forma mais consciente participativa e critica.
Estamos num momento de crise. Mais o que é uma crise, e o que isso tem a ver com o projeto que estamos propondo? Em todo processo de mudança, de evolução, existe um momento crítico e instável, como no caminhar: no momento que estamos dando o primeiro passo à frente e nos encontramos com um pé no chão e outro no ar, corremos o risco de desequilíbrio e queda. Isso é crise_ mas é também somente através desse risco que podemos alcançar nosso objetivo. (Klauss Vianna,1990, pg. 51)
Na década de 70 diversos movimentos socioculturais, artísticos e políticos, eclodiram possibilitando o acontecimento de um ciclo de transformações sociais, nesse momento diversos questionamentos surgem e a abertura para uma retomada do corpo e de sua expressão é consolidada.
A partir desse momento, foi se dando a desconstrução do modelo da dança clássica. A dança moderna traz uma nova proposta, com perspectivas diferentes da clássica que se apresenta descontextualizada culturalmente e socialmente, sob forma de colonização e dominação do corpo. O movimento da dança moderna é um movimento vanguardista que teve início em meados do século XX, e contou com a participação de artistas de diversos segmentos, músicos, pintores, poetas, dentre outros.
Percorrendo o caminho da história da dança, seguimos para o contexto Brasileiro a fim de mostrar um pouco sobre o movimento de vanguarda da dança em nosso pais. Dentre os pioneiros pensadores da dança no Brasil, uma figura que terá destaque no campo da reflexão e criação de um novo ballet nacional, pautado nas raízes culturais do povo brasileiro, foi Klaus Vianna.
Vianna, contribui para o ensino e aprendizagem da dança propondo um trabalho que se destaca entre os outros do atual contexto, pois envolve o desenvolvimento da consciência corporal, observação, experimentação, estudo e reflexão sobre o corpo humano, e suas implicações anatômicas, funcionais, emocionais, psicológicas, afetivas e espirituais. Ele traz uma reflexão sobre a dança e o corpo, que vai além do processo criativo, percorre a arte, a filosofia, e a ciência, cria uma metodologia que inclui a dialética, a percepção e a consciência do corpo e dos movimentos do cotidiano, dentro do processo de aprendizagem a dança e do desenvolvimento de trabalhos em grupo. Para ele:
A criação humana, não importa qual que seja ela, não pode prescindir da vivencia atenta, honesta e paciente da realidade. E a realidade começa no cotidiano, nas coisas mais simples e aparentemente sem importância como exemplo: o sabor dos tomates frescos, o contato com os seios da avó, o bale das nuvens no céu, os movimentos musculares do jardineiro desempenhando sua função. É na observação dos processos da natureza, manifestada dentro e fora de si mesmo, que acumulam acervo de coisas que, depois, constituirão matéria prima da obra pessoal. (VIANNA, Klaus,1990, pg.42)
Tanto Vianna como Duncan, aproximam a dança da vida, nos mostram a possibilidade de contato com nosso próprio corpo, e conhecimento deste através da consciência dos processos vitais. Buscam o autoconhecimento através da dança. Fortalecem a ideia da dança pautada na percepção do cotidiano do corpo, contextualizada com nosso tempo, como nossa cultura, com nossa subjetividade.
Klauss Vianna, estimula o diálogo e os questionamentos dentro do grupo, propõe aos bailarinos um olhar observador, conectado ao seu tempo, a fim de desenvolver sua poética e os seus processos criativos, buscando criar um diálogo da dança com as diversas áreas do conhecimento. Trazendo no desenvolvimento de seu trabalho influências importantes como a de Pina Baush e Kasuo Ohno.
Ao longo dos tempos, a dança passa ser estudada em várias áreas do conhecimento. Na Psicologia como forma de reestruturação e integração corpo e mente, surge a proposta da Psicodança criada por Rolando Toro Arañeda, mais tarde chamada de Biodanza.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s