Educação no Campo e as Cidades : Caminhos que se cruzam

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O conceito de educação vem sendo revisto nos últimos tempos; e considerando as tomadas de diversas iniciativas nesse tema envolvendo os povos que habitam o campo, vamos entendemos de forma mais clara que o processo de educação não é um só: para cada região, para cada cultura, há de se considerar uma educação diferenciada.

Os povos indígenas, ou povos da floresta, por exemplo, derivam seu conceito de educação de uma escola onde não se pode traçar muros. Pois é a própria escola da caça, da língua-mãe, da pesca, da agricultura: é a escola da vida. Os professores, são os mais velhos, que se preocupam em ensinar aos mais jovens como viver em equilíbrio nas florestas; toda educação é, portanto, o conjunto de saberes transmitidos pela comunidade voltado para as suas necessidades.

Além das aldeias, mas não muito além, estão as populações rurais agropecuárias. Com eles, logo se notam restrições em suas relações com a cidade. Considerados muitas vezes sem direito à cidade, porém, sofrendo de desequilíbrios urbanos ( a forma como são levados, por exemplo, a vender seus produtos da terra a preços baixos para “repassadores”, que vendem tais produtos a um preço alto na cidade ).

Dessa relação desequilibrada, as comunidades rurais aos poucos se enquadram como reféns; as consequências disso: deseducação (já que não se considera aí a necessidade de os povos rurais serem detentores de mecanismos intelectuais), fortalecendo apenas o aspecto braçal de trabalho; e , consequentemente, nota-se a gradual extinção de técnicas tradicionais, muitas vezes únicas de determinada região. Uma verdadeira relação de submissão, onde o lema é “o campo serve à cidade”. Quem consegue, abandona o campo para se desenvolver na cidade, o que acaba por enfraquecer a agricultura familiar e fortalecer  a agro-indústria e a monocultura, gerando verdadeiros desertos verdes, extinção cultural, e cada vez mais alimentos transgênicos contendo agrotóxicos, de efeitos duvidosos para a saúde humana, abastecendo as prateleiras dos supermercados nas cidades.

Em um país onde 30% da população adulta rural é analfabeta (2009), a necessidade de rever um plano de educação voltada especificamente para o caso do campo se faz latente. Uma educação específica, que possa fortalecer características locais, e também equipar os povos rurais com formas de lidar com políticas urbanas, quando estas vierem à intervir em seu equilíbrio, se faz latente.

Algumas mudanças estão ocorrendo neste sentido aqui no Brasil. Novas propostas de educação que se adaptem ao campo surgem  em 1996 com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em 2003, o Ministério da Educação lança grupos regulares, em comunidades rurais, de seminários sobre a Educação no Campo. Questões como a consideração de ciclos agrícolas e condições climáticas locais passam a ser debatidas e aplicadas ao calendário letivo, importantes modificações se levarmos em conta o grande período de descaso às culturas rurais, que foram forçadas à uma educação que não reconhece suas potencialidades durante o período caracterizado como regime militar. Um período em que toda as necessidades de povos indígenas, tradicionais, e de movimentos sociais como o MST, foram ignoradas. De uma forma, estamos colhendo os frutos desse descaso.

Medidas como a Lei Griô, que busca dialogar e trazer mestres de conhecimentos ancestrais para transmitir os saberes de seus povos tradicionais dentro de escolas do campo, e a Lei 10.639, que propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana, estão sendo colocadas em debate neste momento. O debate da educação no campo levanta também a necessidade de currículo elaborado pelos próprios povos do campo. Todas essas são transformações que estão ocorrendo, nestes cenários de tantas contrariedades que vivenciamos, por vezes distantes de nós.

Não tão distantes, no entanto, quando consideramos a malha de forma mais completa. Onde o fortalecimento de cultura no campo se reverte em medidas como diminuição do êxodo rural, que dificulta a fluidez dos sistemas nas enormes cidades que são os centros metropolitanos brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Além disso, também se reverte em fortalecimento da agricultura familiar, que se desdobra em um consumo mais consciente de produtos orgânicos nas cidades, expandindo o campo de atuação de mais feiras orgânicas, levantando mais debates sobre agrotóxicos e transgênicos. O campo, portanto, não está tão separado da cidade. Lutar por uma educação que fortaleça as peculiaridades regionais do campo significa agir a favor de uma relação mais saudável com a cidade. Como dizem os antigos, “quem planta o bem, colhe o bem”.

//Referência:
http://www.partes.com.br/educacao/educacaoindigena.asp

pne.mec.gov.br [Novo Plano Nacional de Educação sendo aplicado em algumas cidades brasileiras ]

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